Espaço Livre #1 – O sexismo na WWE

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EAE GALERA NO WRESTLEMANÍACOS! Estréia de quadro novo aqui no site dos maníacos do wrestling: É O ESPAÇO LIVRE! Tem vontade de escrever um texto sobre algum assunto aleatório, e quer mostrar seu talento na escrita e dissertação para o mundo? Aqui é o lugar que você procura! O Espaço Livre é um quadro onde leitores do blog tem a oportunidade de participar do blog através de textos sobre qualquer assunto! Escreveu um texto bom? Com boa escrita, boa dissertação e boa expressão de idéia? Manda aqui pra gente em [email protected] e veja seu texto em exposição para o mundo!

O primeiro texto do Espaço Livre foi enviado pelo André Cunha, e veio falar sobre um assunto que tem sido muito debatido desde a ultima segunda feira, principalmente em blogs internacionais. Vamos lá?

Finally The Rock has come back… Home! E foi isso: vimos The Rock retornar ao Monday Night RAW pós-Royal Rumble para ajudar seus primos Usos a dar uma coça na New Day. Foi interessante, mas não foi isso que mais me chamou atenção, mas sim a sua interação com Lana. No segmento, Rock encontra Lana nos bastidores enquanto se dirigia ao estádio. Ele fica bastante contente ao vê-la e a partir daí inicia um diálogo sugerindo uma série de movimentos que seriam posições sexuais, como se os dois houvessem transado em algum momento do passado. Rusev, que é noivo de Lana na vida real, aparece e Rock deseja um feliz casamento aos dois e diz que Rusev tem sorte em casar com uma mulher tão flexível. Mas claro que todos fomos à loucura, afinal é nada mais nada menos que The jabroni beating, pie eating, trail blazing, eyebrow raising, the best in the present, future and past, etc e etc; fazendo seu trabalho como ninguém e destruindo verbalmente qualquer um que passa por seu caminho. Mas a questão é: precisava ser desse jeito?
A WWE sempre teve muitos problemas de exaltar comportamentos problemáticos como algo positivo. Se o segmento foi ideia do Rock ou da equipe criativa, não vem ao caso, porque os problemas presentes ali são uma constante na empresa. Em todo o segmento, Lana ficou visivelmente desconfortável, afinal de contas, Rock simplesmente estava chamando a moça de vadia. Rock praticou um slut-shaming em Lana, fazendo-a sentir-se desconfortável não somente por um comportamento sexual que ela teve, como também por ter sido infiel ao seu noivo (da vida real, inclusive). Era mesmo necessário? Essa é toda a criatividade que a WWE tem a oferecer?
Acredito que isso seja uma punição a Lana, já que existem rumores que ela possui certo atrito com Paige, depois de chamá-la de bully. Além disso, a WWE não pareceu contente com o relacionamento de Rusev e Lana, porque isso atrapalharia uma storyline. A necessidade que a WWE sente de punir alguns wrestlers por comportamentos que ela desaprova, já é um problema em si, mas não vou entrar nesse mérito. Lana merecendo ou não uma punição, a única solução que encontraram foi humilhar a moça e tratá-la como uma vagabunda? “Mas você tá exagerando, afinal de contas são personagens sendo representados ali!”. De fato, são personagens, mas ao escolher reproduzir esse tipo de comportamento sexista no segmento, a WWE mostra que não tem nenhuma preocupação com igualdade de gênero. Além disso, o fato de ser uma representação fictícia pode ser ainda pior, principalmente se considerarmos o peso que The Rock tem no wrestling. Isso minimiza muito a questão e levanta um bloqueio à críticas, algo que não pode acontecer. O fato de ser um objeto teatralizado não pode impedir que isso seja problematizado. É necessário que pensemos em que conteúdo a WWE escolhe passar, porque isso pode influenciar muitas pessoas, independente de que seja real ou ficcional. Mas o problema não é de hoje.
Vamos pensar em alguns casos passados pra ilustrar melhor. Em 2001 aconteceu um infame segmento entre Trish Stratus e Vince McMahon, a criatura mais insana desse nosso universo. No ringue, Vince McMahon gritava com Trish Stratus, obrigando-a a tirar sua roupa e latir como um cachorro (e por que não cadela?), porque só assim, de acordo com a absurda storyline, ela manteria o seu emprego. Vince, sendo o personagem do chefe, além do chefe de verdade, obriga sua subordinada a ficar em uma posição degradante em vários níveis, além é claro da hipersexualização do corpo de Trish. “Mas isso era no tempo da Attitude Era, muitas coisas absurdas aconteceram!”. É verdade, mas vamos analisar um caso ainda mais absurdo envolvendo Kane e Lita.

Vince demonstrando como ele é um "excelente" patrão
Vince demonstrando como ele é um “excelente” patrão

Em 2004, Lita e Matt Hardy entraram em uma storyline em que se casariam. Houve um segmento entre os dois em que Lita revelava estar grávida e Hardy a pediu em casamento. Eis que surge Kane para estragar a celebração, afirmando que o bebê de Lita não era de Matt Hardy, mas sim dele. Todos ficaram chocados! A questão é que semana antes Kane havia abordado Lita e chantageado a moça, obrigando-a a fazer sexo com ele, caso contrário ele arrebentaria Matt Hardy. Enfim, como se não fosse absurdo suficiente, é marcada uma luta entre Matt e Kane para o Summerslam, cujo vencedor teria o direito de casar com Lita. Claro que Kane venceu. Lita e The Big Red Monster se casam, até que em uma luta Kane caí por cima de Lita acidentalmente e a faz perder o bebê. A partir daí, Lita que até então odiava Kane, passa a amá-lo, vejam só que maravilha! Um tempo depois, aconteceria um torneio pelo World Heavyweight Championship, em que Kane e Edge se enfrentariam na final. Neste momento a WWE estava começando a construir um face turn de Kane, que acabou sendo solidificado na luta, quando Lita trai Kane e ajuda Edge a vencer, tornando-se heel. Resumo da obra: Kane, que estupra e engravida Lita, faz ela se casar com ele e a mantém em uma relação abusiva, é agora o boa praça; enquanto Lita que sofreu tudo isso nas mãos de Kane é a vilã. Às vezes é muito difícil ser fã de pro-wrestling…

E eles foram felizes até Kane virar o Estuprador Boa Praça
E eles foram felizes até Kane virar o Estuprador Boa Praça

A interação entre Rock e Lana na última RAW não deve ser minimizada, porque não é um caso isolado, mas sim mais um em uma conduta que a WWE mantém por muito tempo, degradando a mulher. Não só isso, mas quantos negros foram campeões mundiais? Geralmente os negros são heels ou jobbers na companhia. Somente esse assunto já ocupa um texto inteiro, então vamos continuar pensando em como a WWE trata as mulheres.
O termo “diva” é bastante problemático, muito mais do que “superstar”. Em muitos contextos, “diva” pode ser usado como um termo pejorativo, indicando uma pessoa talvez fresca, histérica ou super arrogante. Mas vejam só que coincidência! Não é assim que a maioria das divas tem sido retratada na WWE? As motivações das divas são as mais cretinas possíveis, muitas vezes envolvendo a atenção de um superstar, ou quem é a mais bonita e por aí vai. Me lembro de uma feud entre Paige e as Bellas, em que as irmãs seguram Paige e espirram um bronzeador artificial na barriga da moça, porque ela precisava de uma corzinha. Sério? É assim que você constrói uma rivalidade séria? A WWE, por muitos anos, preferiu contratar modelos ao invés de atletas para a divisão feminina. O resultado foi essa exacerbação das “divas como divas”, com motivações fúteis e a construção desesperada de estereótipos de beleza, além de lutas com péssima qualidade técnica, o que ajudou a levantar o desinteresse pela divisão.

Tinta na barriga: uma motivação mortal
Tinta na barriga: uma motivação mortal

Ultimamente temos ouvido falar da “Divas Revolution”, em que o wrestling feminino tem novamente ficado em evidência. Talvez seja a primeira vez em muitos anos que a WWE tenha contratado atletas de verdade para a divisão feminina. Mulheres como Sasha Banks, Becky Lynch, Charlotte, Bayley e Paige tem colocado o wrestling feminino em evidência novamente. Basta assistir qualquer luta entre Bayley e Sasha Banks para perceber que a qualidade das lutas tem sido altíssimo. Essas meninas tem mudado a opinião das pessoas sobre o wrestling feminino e inclusive estão defendendo a abolição do Divas Championship e a volta do Women’s Championship. De qualquer maneira, a WWE continua sendo uma péssima empresa para se trabalhar, principalmente para as mulheres. Desejo muita sorte e força para essas mulheres, porque a WWE tem muito que melhorar.

Esperemos que mais atletas talentosas como Charlotte, Bayley, Sasha Banks e Becky Lynch virem o padrão da WWE
Esperemos que mais atletas talentosas como Charlotte, Bayley, Sasha Banks e Becky Lynch virem o padrão da WWE

Por fim quero fazer uma consideração sobre a confecção deste texto. Eu preferia que uma mulher o tivesse escrito, porque não sou eu, um homem, que sinto na pele este tipo de sexismo (por que não misoginia?), que a WWE perpetua. Sinto que de certa forma é uma apropriação de um protagonismo feminino. Todavia, eu estar escrevendo esse texto, acho que demonstra como o pro-wrestling tem sido dominantemente masculino. Eu não conheço nenhuma mulher que acompanhe pro-wrestling com frequência e por um tempo considerável, com exceção de algumas amigas que eu tenho apresentando. Talvez seja justamente por causa desses problemas que haja poucas mulheres acompanhando, porque esse universo tem-se mostrado bastante hostil a elas. Por isso, mais do que qualquer coisa, gostaria de saber a opinião das mulheres que acompanham o blog sobre esse tema.

Quero deixar meuás agradecimentos para Sarah Wons e Sara Monteiro, que avaliaram e comentaram meu texto.

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