The Squared Circle #04 – Como produzir seu babyface em poucas etapas

Hoje, o the squared Circle mostra, através de uma análise histórica, como o passado do Wrestling pode influenciar na escolha correta de um Top Babyface.

Março de 1987, Wrestlemania III. O Main Event? André the Giant vs Hulk Hogan. O primeiro; Dono de uma das invencibilidades da história de qualquer coisa, ficando 15 anos, repito, 15 fodendo anos sem perder. O outro, o principal babyface do Wrestling na década de 80. A expectativa em torno dessa luta era imensa, onde quase 100 mil pessoas assistiram a luta presencialmente, além de quase 1 milhão de pessoas nos 160 locais de circuito fechado na América do Norte. A luta? Uma bosta. A avaliação de menos quatro dada por Meltzer exemplifica bem o quão ruim esta match foi. Bem, pelo menos o público adorou. O fato de que Hulk Hogan levantou os 230 kg de André, e aplicou um Body Slam, em seguida seu Leg Drop of Doom para a vitória fez com que seja uma das matchs mais memoráveis da história, sendo a preferida de muitos que viveram aquela época.

André the Giant vs. Hulk Hogan: A Melhor Pior Luta da História.

Claro, isso ocorreu antes de 1989, onde Vince McMahon anunciou publicamente para quem queria ouvir que Wrestling era “apenas entretenimento”, dizendo o que todos já sabiam, mas agora era oficial. Não quer dizer que foi algo insignificante; pelo contrário: talvez um dos momentos que mais moldaram o wrestling como é visto hoje. A WWF se tinha se tornado uma empresa Nacional, assim como sua futura concorrente, a WCW. Dessa forma, os fãs de wrestling, que pelo menos assistiam a uma destas companhias, começaram a ver o wrestling de outra forma: avaliavam mais o caráter da luta do que a vitória em si. Obvio que essa mudança não aconteceu bruscamente, visto que até hoje ambos os lados continuam em equilíbrio na balança, mas o wrestling deixava de ser um “esporte” para ser entretenimento.

E isso afetou a todos: Hulk Hogan, cada vez mais perdia espaço no wrestling. As pessoas ficavam sabendo do real Hulk Hogan, e suas políticas nos backstages (como se recusar a perder para Bret Hart pelo título, pois o considerava muito pequeno). Aos poucos, Hogan foi perdendo seus fãs. O que eu quero dizer, é que ninguém mais torcia para os wrestlers com mais vitórias, e aqueles nos topos dos cards, mas os mais carismáticos, aqueles que divertiam com suas performances in ring e in mic. Nesta transição, principalmente em 1995, o wrestling perdia sua popularidade. Os fãs de wrestling pediam por mais.

Nesta crise, uma federação pequena, nova, e que iria mudar para sempre a cara do wrestling, resplendia como uma esperança: a ECW. Enquanto as duas maiores empresas do território Norte Americano trazia um conteúdo velho e repetitivo, a Eastern Championship Wrestling (e depois Extreme Championship Wrestling) trazia um conteúdo mais direcionado ao público adulto (em contraste com as duas companhias maiores, que buscavam um programa para a família). Enquanto ambas as companhias traziam personagens caricatos, a ECW trazia personalidades reais, e com isso as feuds eram mais intensas. Enquanto a WWE e a WCW traziam wrestling matchs habituais, a companhia de Paul trazia um wrestling com mais variedade, adaptando o estilo “lucha libre” a alguns de seus wrestlers, como Eddie Guerrero e Rey Mysterio, (criando assim a cruiserweight division). Antes de existir Jeff Hardy e Shane McMahon, saltando de alturas inimagináveis, existiu Sabu, que se recusava a compreender que o corpo humano tem limites mortais.

A ECW revolucionava o wrestling na época, porém tinha alguns problemas: o baixo poder aquisitivo, além de ser direcionada para um público mais adulto, e assim famílias com filhos em casa se recusavam a colocar em suas casas um programa onde um wrestler rasgava seu braço em arame enfarpado em uma barbed wire match (Luta onde Arame Enfarpado substituía as cordas do ringue), fazia uma bandagem improvisada e retornava para a luta. O pior é que ambos as companhias copiaram o estilo desta. Começando com a WCW, com a criação da NWO, e logo em seguida a WWF, com a criação da Atitude Era. As duas começaram a seguir um padrão mais “adulto”, porém ainda mais “soft” que a ECW. O Wrestling se transformava, assim como seus fãs, que ficavam cada vez mais exigente com seu conteúdo.

Mas o que isso tudo tem a ver com o título da crônica? Então, vamos lá. Como já tinha dito, Hogan começou a perder fãs. As pessoas anteriormente ovacionavam um wrestler que vencia, porém a partir do dia em que Vince anunciou que o wrestling tinha script, as pessoas, foram perdendo o interesse pelo mesmo, pois a vitória já não contava tanto quanto antes, e o carisma repetitivo de Hogan já estava ficando um pouco monótono. A WCW viu a situação perfeita para dar seu Heel Turn para Hogan, assim transformando seu personagem e dando a WCW um aspecto maior de realismo. Como Hogan era Heel, todo mundo amava odiar aquele que tinha autoridade por trás, agora evidente inclusive em kayfabe. Por isso deu tão certo. Pela primeira vez na história, o principal wrestler de uma empresa de wrestling era um Heel.

Isso tudo pois os fãs deixaram de exigir que o babyface de uma empresa ganhe, mas que ele deva ser realmente o melhor. E nisto, os fãs começaram a conflitar entre si, pois a história onde a arena ovacionava o face e vaiava os heels se dissipava. Desde então, o público, ciente de que wrestling é bookado, aos poucos deixam de engolir os wrestlers que as empresas acima de tudo tentam elevar para ser o babyface. Pelo contrário, quer alguém que supere as expectativas, e acima do bem e do mal, consiga subir ao topo por conta própria (Velha história do Daniel Bryan e Roman Reigns em 201, lembram?)

É a famosa jornada do herói (ou monomito): já viu a história onde o protagonista, ingênuo no início, a partir de uma jornada, se torna mais poderoso e sábio, e após acabar com um vilão específico, retorna pra casa com tudo que aprendeu? Pois é, um monte de histórias possui esse mesmo esquema. (segue aqui um vídeo rápido e eficiente, explicando esse conceito: https://www.youtube.com/watch?v=JyppAi3muyQ). No Wrestling, esse conceito se repete, porém não mais a partir do wrestler que apanha e vence nos minutos finais, mas naquele que é bom, mas na realidade é o Underdog, em vista dos bookers.

“Então um bom Top babyface é um cruiserweight, como Sami Zayn e Daniel Bryan, que são verdadeiros Underdogs pelo seu tamanho, além de péssimos bookings atribuídos a eles, porém são os melhores em suas respectivas áreas?” Não é tão simples. Existe um fator que eu esqueci de mencionar, e para citá-lo, vou usar a história a meu favor. Contando a WWE e a WCW, sabe qual o único wrestler que não foi vaiado como Babyface da companhia? The Rock? Não. Ele foi vaiado diversas vezes em 2002, tendo um heel turn quase obrigatório após a luta contra Brock Lesnar no Summerslam, devido as vaias do público. Brock Lesnar? A mesma situação que The Rock, sendo vaiado contra Angle. E isso se repete com Bret Hart, Shawn Michales, e com John Cena e Roman Regns, que no caso eu não preciso nem falar. Undertaker? Nunca foi Top Babyface.

Austin: O único Top Babyface que deu realmente certo.

“Quem sobrou?” Isso mesmo. O único Top babyface a não ser vaiado enquanto respectiva função foi o nosso querido Stone Cold Steve Austin. Nunca ninguém na história das empresas de Wrestling deu tão certo quanto Austin na WWF, no período de 1997 até 2001. A real jornada do herói no wrestling apenas aconteceu com ele. “Como assim? Ele não estava sendo considerado para o ME desde seu debut na WWF, além de seu histórico de Upper Mid Card na WCW?” Sim, vou explicar melhor. Austin, como todos sabem, foi demitido da WCW, por que Hogan acreditava que seu salário era muito alto para um wrestler que não tinha carisma suficiente para determinada posição (isso é uma piada pronta, e adoro lembrar a ironia que isso se ocasionou). O Texas Rattlesnake, assim, foi convidado por Heyman (o maior gênio da história do Wrestling) a expressar sua frustração sobre o ocorrido. SCSA, em uma das maiores pipebombs da história, contou o que havia ocorrido com ele na WCW, sobre as políticas dos backstages da empresa, assim como duras ofensas a Eric Bischoff e a Hulk Hogan, responsáveis por sua demissão. Austin ficou pouco tempo na ECW, porém suficiente para que ele pudesse mostrar quem ele realmente era. Ou seja, aquilo era realmente ele, e não um personagem criado por bookers e corporativos.

Através disto, após ir para a WWF, e ter um curto e fracassado episódio como Ringmaster, Steve se tornou Stone Cold, um personagem anti-corporativo, vastido com um colete de couro com uma caveira desenhada em suas costas, contrariando o modelo de todo o produto da WWF naquele período. Além do mais, Austin não era apenas um bom wrestler, mas alguém que encontrou o que parecia ser o fim de sua carreira, e ressurgiu, não como um personagem qualquer, mas um Texano que bebe cerveja após as lutas, e que não discerne o que é certo e o que é errado. Stone Cold Steve Austin era um wrestler da WWF com uma Gimmick de ECW. Por isso ele é tão diferente; por isso ele foi tão especial: a improbabilidade de alguém como Austin surgir o tornou único.

Dessa forma, a formula fracassa em ser recriada, pois tanto Roman Reigns tanto quanto John Cena foram wrestlers que apesar de ser anti-corporativistas em suas gimmicks, não passam de “script-readers”, sendo assim não diferentes do Hulk Hogan foi. Porém recentemente, temos alguém que possa ser o que todos esses que sucederam Austin: AJ Styles. O wrestler que anteriormente era o face da TNA, sendo por muito tempo bom demais para a posição que assume, e agora com o estrondoso sucesso que está fazendo, recria outra improbabilidade tão nova e tão diferente como a de Stone Cold. O que resta é apenas um bom booking que corrobore com esse acontecimento.

Escrito por Joao Lucas

23 carnavais, Cruzeirense, formado em Psicologia. Fã de futebol, música e de wrestling desde que me entendo por gente. Ainda esperando aquele singles push do Cesaro…

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